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Durante todo o séc. XVIII Botafogo foi um distante arrabalde que fazia parte da isolada freguesia rural de São João Batista da Lagoa. Suas vastas terras serviam, sobretudo, de passagem para os fortes do litoral sul ou para a freguesia de Sacopenapã (atual Rodrigo de Freitas) onde, desde o séc. XVI havia um Engenho Real. Em 1702, inicia-se o processo de repartição de suas terras, com o surgimento de três grandes chácaras: a de Olaria, que compreendia quase que a totalidade do bairro atual, a do Outeiro e a do Vigário Geral.
Com a vinda da Corte portuguesa para o Brasil em 1808, a cidade se beneficia do incremento dos serviços, do comércio e do crescimento populacional, que leva os mais abastados a procurarem áreas afastadas, fora das freguesias centrais. Com clima agradável e cercado de belezas naturais, a freguesia de Botafogo começa a trair a atenção dos nobres da corte, de comerciantes ricos, bem como do corpo diplomático credenciado junto à corte portuguesa. Em princípios do séc. XIX, D. Carlota Joaquina, esposa de D. João VI, manda construir uma casa situada na Praia de Botafogo, esquina do caminho Novo (atual Marquês de Abrantes).
De modo geral, até 1820 poucos caminhos cortavam o bairro, que permanecia basicamente uma região alagadiça: o caminho do Berquó (atual General Polidoro), o mais antigo de todos, acompanhava o leito do rio do mesmo nome; o de São Clemente, que ia para a Lagoa; o de Copacabana (Rua da Passagem) e o da própria Praia de Botafogo. Em 1838, a Freguesia da Lagoa passa a ser considerada urbana, apesar de ser ainda escassamente povoada. Só a partir de meados do séc. XIX é que começa de fato a integração de Botafogo na malha urbana da cidade. É a partir dessa época que uma população cada vez mais numerosa começa a habitá-lo, levando a sua consolidação como bairro nas três últimas décadas daquele século.
Em 1839 um precário serviço de transporte com tração animal ligava-o ao centro da cidade, até que em 1843 é inaugurado um serviço de barcos a vapor que, por muitos anos, se tornou o principal meio de transporte de sua população. Em 1854, Botafogo passa a contar com abastecimento regular de água e, a partir de 1860, a iluminação à gás ilumina suas casas. Ainda em meados do séc. XIX começam a ser abertas as primeiras ruas, a partir do parcelamento e desmembramento das chácaras, que começam a ser transformadas em lotes urbanos. Em 1826 surgem as Ruas Nova de São Joaquim (Voluntários da Pátria) e Real Grandeza. Em 1839 tem início um novo desmembramento das terras do bairro, surgindo as Ruas Olinda (Marques de Olinda), Bambina, Viscondessa (Assunção) e a travessa Figueiredo (atual Marechal Niemeyer). Por essa época, Botafogo já conta com suntuosas mansões, e novas ruas são abertas, tais como a D. Mariana, Sorocaba, Delfim (Paula Barreto), a da Matriz - aberta com a finalidade de facilitar o acesso a igreja construída em 1831 - a de São João Batista, para dar acesso ao cemitério, construído nessa mesma época, e o Largo dos Leões. A partir de 1867 o bairro passa a ser servido pela Companhia de barcas Ferry e, a partir de 1871, torna-se um dos primeiros a ter um serviço regular de bonds de tração animal. Com a implantação desses transportes coletivos, acentua-se a diversidade populacional do bairro, e o comércio, que antes se concentrava na praia, vai aos poucos se interiorizando, acompanhando a linha do bonde e contribuindo assim para a completa urbanização do bairro.
Em 1892 e 1906 a Companhia de Ferro-Carris Jardim Botânico abre os túneis Velho e Novo, o que possibilita o acesso à Copacabana. Em 1901 prolonga-se a linha de bonde até a Vila Ipanema (atual Praça General Osório). Na primeira metade do século XX ocorre uma transformação no perfil de seu morador típico: de bairro nobre, até então reduto privilegiado da aristocracia, Botafogo passa a receber uma população diferenciada de funcionários públicos, militares, operários, artesãos, comerciantes e bancários. É quando surgem os primeiros cortiços e as primeiras vilas, produzidas em grande número, para atender a essa nova população. Botafogo torna-se então um bairro de ligação entre o centro e os novos bairros que vão sendo urbanizados e integrados à malha urbana da cidade. Em 1903, numa antiga chácara da Rua São Clemente é fundado o Colégio Santo Inácio; em 1918, surge o Colégio Andrews, dando ao bairro um ar cosmopolita, junto com os primeiros edifícios de três a seis andares, na orla da praia e nas Rua Voluntários da Pátria, São Clemente, Passagem e General Polidoro. Hoje Botafogo é um bairro com dupla identidade. De um lado, faz a ligação entre o centro e a zona sul e, de outro, mantém seus velhos casarões, suas vilas e mansões que ainda fazem lembrar o sofisticado e aristocrático bairro que ele foi um dia. |